Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) é uma das maiores causa de mortalidade no mundo. Anteriormente entendida como uma doença restrita ao pulmão, sabe-se atualmente que essa patologia causa processo inflamatório sistêmico e que tem repercussões não apenas respiratórias, mas cardiovascular, endócrina, neurológica e psiquiátrica. Assim, a presença de comorbidades como depressão, ansiedade e problemas cognitivos são uma realidade nesta população.
Para o geriatra essa situação é o dia-a-dia da população com mais de 65 anos. Por isso o foco é manter o individuo independente e não necessariamente livre de doenças. A associação do DPOC com perda cognitiva e depressão torna-se de fundamental importância, uma vez que pioram a mortalidade, aumentam o número e o tempo de internação e pioram a qualidade de vida do idoso. Sua identificação e tratamento são uma questão crucial para o melhor manejo do paciente.
Tomados em conjunto, os dados da literatura demonstram que o paciente com DPCO tem mais perda cognitiva, seja o Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) até a Demência. Múltiplos fatores de risco estão envolvidos nesta associação como: Hipoxemia, Hipercapnia, inflamação, alteração do sono, tabagismo entre outros. Rusanen ET al. (2013) encontraram que indivíduos com DPOC na meia idade têm risco de 1.85x de ter CCL na velhice. É evidente que idosos com perda cognitiva terão maior dificuldade de aderir ao tratamento e maior dificuldade em utilizar dispositivos em aerosol por exemplo. Por outro lado, o uso de oxigênio contínuo quando comparado a uso “quando necessário” esta associado a uma melhor desempenho cognitivo. A perda funcional do idoso com DPOC também é maior (12,8%) que de idosos sem DPOC (5,2%) em estudo transversal. Adicionalmente, o acompanhamento de 2 anos desta população identificou 9,2% do grupo DPOC apresentou piora da capacidade funcional que 4,0% do controle (P<0.001).
No que se refere a depressão e ansiedade, seja na apresentação clínica ou subclínica, estão fortemente associados ao DPOC. Essa é uma situação que impõem grandes desafios, desde diagnóstico, manejo e tratamento destes pacientes.
A dificuldade começa na identificação do DPOC associado com depressão/ansiedade tanto pelo paciente quanto pelo médico. Os sintomas de isolamento, cansaço, alterações de sono, angustia podem ser facilmente confundidos como sendo causados pelo DPCO ou pelo envelhecimento quando na verdade trata-se de sintomas de uma doença psiquiátrica. O fato do paciente ter múltiplas queixas e que muitas vezes são vagas e imprecisas, também complicam a identificação correta da depressão e/ou ansiedade. A falta de instrumentos de diagnóstico específicos para essa população, faz os profissionais da saúde lançarem mão de escalas globais, as quais não levam em conta as peculiaridades da pessoa com DPOC e alterações psicológicas.
Uma complexa interação ocorre entre DPOC e depressão/ansiedade e envolve questões psicológica, comportamentais e psicosociais. Pessoas deprimidas fumam 2 x mais que a população geral. Devido às freqüentes exacerbações do DPOC é comum isolamento e um estado de hipervigilancia. Teixera ET al. (2015) observou que um terço dos pacientes com DPOC tem critérios para Síndrome de Estresse Pós-Traumatico. Com o envelhecimento os pacientes já têm muita perdas como aposentadoria, falecimento de entes queridos que causam uma redução da sua rede de contato social, some-se a isso uma doença crônica e incapacitante (DPOC) e sintomas psicológicos desfavoráveis, tudo leva a um isolamento social que só agrava toda a saúde do paciente em questão.
Uso de medicações antidepressivas pode reduzir os sintomas, mas sua eficácia não esta bem documentada e ainda carece de evidências. Além desta população também ser menos tolerante a efeitos colaterais e de ter baixa aderência a tratamentos propostos. Por isso, a terapia farmacológica deve ser restrita a caso moderados a graves.
Terapia Cognitivo-Comportamental pode melhorar os sintomas de depressão e/ou ansiedade, bem como exercício físico e Reabilitação Pulmonar (exercício+educação) que têm demonstrado resultados promissores.
O tratamento do DPOC deve ser otimizado e quando houver indicação o uso de oxigênio deve ser prescrito de forma continua, pois parece ter melhor impacto na cognição.
Em resumo, trata-se de uma situação desafiadora que envolve desde um diagnóstico preciso até um programa de reabilitação bem estruturado, o qual deve ter como foco melhora funcional e de qualidade de vida para o paciente.
BIBLIOGRAFIA
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